Tucunaré: Conheça todas suas espécies

por Roberto Conti

Crédito da imagem Lester Scalon

Cichla spp, o Tucunaré

Tucunaré. Por muitos, o melhor peixe de água doce para se pescar no mundo. Principalmente quando falamos em iscas artificiais (incluindo moscas de fly). O tucunaré é um predador carnívoro inconsequente, agressivo, forte e muito esportivo. Por esses adjetivos, eles foram amplamente distribuídos (translocados) pelo Brasil e no exterior.

Hoje, a literatura reconhece 16 espécies de tucunarés. No Brasil, todos são originários do Centro-Oeste e Norte. Mas devida as introduções (sem estudos de impactos biológicos), tem tucunaré em todas as regiões brasileiras. Sim, TODAS. Até no Sul encontramos os tucunas. Isso é bem preocupante para falar a verdade. Para muitos pescadores, isso é bom, porque tem mais pontos para pescar o tucunaré, mas para o meio ambiente, é uma atitude totalmente inadequada. Mas isso podemos falar outro dia...

Tucunarés - Crédito - Wellerson Santana

Agora, vou dar uma pincelada geral em todas as espécies catalogadas e falar de algumas peculiaridades ou curiosidades das mais pescadas.

Ficha Técnica:

Nome Científico: Cichla spp. (engloba todas as espécies)

Nome original: Tucunaré Origem do nome: Tupi Significado do nome: "tucun" (árvore) e "aré" (amigo), ou seja, "amigo da árvore" (por isso arremessamos nesses pontos)

Família: Cichlidae Ordem: Perciformes Distribuição original: América do Sul

Distribuição “ampliada”: América do Norte, Europa e Ásia Alimentação: predominantemente piscívoro. Consome peixes menores (inclusive de sua própria espécie). Costuma se alimentar também de outros animais aquáticos, insetos e pequenas aves entre outros pequenos animais que caem na água. Reprodução: Não faz migração (não “participa” da piracema). Formam casais e escolhem áreas de águas paradas, locais espraiados, leitos de lagos, proximidades de estruturas submersas e remansos para construir os ninhos e cuidar das proles. Nos rios onde habitam, as reproduções ocorrem no período das chuvas. Em reservatórios, como açudes, represas e tanques, as reproduções podem ocorrer várias vezes por ano, já que os níveis das águas são mais controlados e não têm as cheias.

Métodos de pesca:

Originalmente, a pesca era feita com iscas naturais, vivas ou mortas (em movimentos). Alguns indígenas começaram a usar iscas artificiais, montadas em anzóis com chumbos e pedaços de panos. Com acesso aos novos equipamentos de pesca, logo começamos a experimentar apetrechos melhores, como varas e carretilhas de alto rendimento, linhas mais adequadas para usar com as nossas insubstituíveis artificiais e claro, tivemos acesso à uma gama incrível de iscas que antigamente não tínhamos.

Uma pescaria incrível e que rende capturas de exemplares enormes também, é o fly, que é mais comum entre os pescadores estrangeiros. No Brasil, a modalidade cresce e muitos pescadores, que antes só levavam equipamentos para artificiais, passaram a dividir os tubos de varas com as varetas de fly. Muitos outros aposentaram as artificiais e só pescam de fly hoje em dia. Resumindo, os tucunarés podem ser pescados com iscas naturais, artificiais e com equipamentos de fly.

Características do peixe e os melhores pontos de pesca (onde arremessar as iscas):

Tucunaré C temensis arrancou pitão e garatéias da isca

Com hábitos diurnos, atacam por emboscada e por perseguição, que é quando o peixe sai atrás de suas vítimas. Mas na maioria das vezes, a tocaia é a estratégia de ataque dos tucunarés. Eles ficam escondidos ou camuflados em pontos específicos prontos para atacar. Conhecendo um pouco deste comportamento, fica mais fácil descobrir onde arremessar nossas iscas para termos sucesso na pescaria.

Vamos desvendar a mente de um assassino impiedoso... rs.

Voltando para a ficha técnica, o significado do nome tucunaré, é amigo da árvore. Isso quer dizer que a grande maioria deles fica por perto das árvores. Rodeiam troncos caídos, árvores afundadas, raízes submersas e até copas de árvores. Sabendo disso, esses pontos são ótimos para arremessar nossas iscas. Fora isso, tem mais lugares para nossas artificiais passarem. Pedrais, remansos, moitas, caídas de cachoeiras e de água, barrancos, margens, vegetações superficiais e submersas, bocas de lagoas (nas “esquinas”), pontas de ilhas e estruturas artificiais como pés de pontes, cercas, piers, naufrágios, ou qualquer outra estrutura não natural que está afundada.

Quais são as espécies e onde elas estão:

Como comentado, hoje a literatura reconhece 16 espécies de tucunarés. Todas, são originárias da América do Sul. Brasil, Peru, Venezuela, Colômbia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa são os países em que as espécies são endêmicas e no Paraguai, onde foi introduzida. Por ser um peixe muito esportivo, muita gente os levaram para outros estados onde não eram nativos, como por exemplo, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espirito Santo, Bahia entre outros. Vou dar uma breve ideia destas 16 espécies, de onde elas se originam e para onde elas foram translocadas. Estão em ordem alfabética.

Cichla cataractae (nova espécie descrita em 2020):

É restrita dos rios da bacia do Essequibo na Guiana e também nas bacias do Cuyuní e Mazaruni, tanto na Guiana, como na Venezuela.


Beto Meija - Cichla cataractae


Cichla intermedia (tucunaré Real):

É restrita dos rios Casiquiare e Orinoco na Venezuela e Colômbia.


Juan Jose Zuluaga - Cichla intermedia

Cichla jarina (tucunaré Jarí):

Vivem exclusivamente no Rio Jarí, no Brasil, onde até o momento é registrada apenas na região das corredeiras de Santo Antônio.

Cichla kelberi (tucunaré Amarelo):

Era restrita à bacia do rio Tocantins, pegando os estados de GO, TO, MT e PA, mas foi translocada para bacias e represas dos rios Paraná e Paraíba do Sul e em alguns pontos do Rio de Janeiro, Espirito Santo, Minas Gerais e regiões do Nordeste brasileiro.


Cichla kelberi - Amarelo - Foto Leonardo Arona Alves

Cichla melaniae (tucunaré do Xingu): É restrita ao baixo rio Xingu.


Cichla melaniae

Cichla mirianae (tucunaré Fogo): Endêmica dos formadores do rio Tapajós (rios Juruena, Teles Pires e seus afluentes) e também no alto rio Xingu. Pega os estados de MT e PA.

Cichla mirinae - Bacia do São Benedito

Cichla monoculus (tucunaré Popóca):

É encontrado nas planícies de inundação da bacia amazônica (Brasil, Colômbia e Peru). Também existem nos rios do Amapá, Acre, Tocantins, Pará e no baixo rio Oiapoque, na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa.

Cichla nigromaculata (tucunaré Tauá):

Encontrada no alto rio Orinoco na Venezuela e no meio do Rio Negro no Brasil.


Alberto Meija - Cichla nigromaculata

Cichla ocellaris (tucunaré Amarelo):

Região das Guianas, Suriname e Norte do Brasil, no alto Rio Branco em Roraima.


Cichla ocellaris por Luana Pigatto na Flórida


Cichla orinocensis (tucunaré Borboleta): Rios Negro e Orinoco no Brasil, na Colômbia e Venezuela.

Beto Meija - Cichla orinocensis no Rio Orinoco - Colombia

Cichla piquiti (tucunaré Azul):

Era para ser restrita à bacia do rio Tocantins como o kelberi, mas também foi translocada para as bacias e represas dos rios Paraná e Paraíba do Sul, em alguns pontos da região Nordeste do Brasil e no Paraguai.


Cichla piquiti - Azul - Arquivo Leonardo Arona Alves

Cichla pleiozona (tucunaré Pitanga):

Encontrada nos rios Madre de Dios, Beni e Guaporé na Bolívia e no Brasil, e no rio Jamari, também no Brasil.

Cichla pinima (tucunaré Pinima):

Ocorre nos afluentes do sul do rio Amazonas no Brasil (Tapajós, Curuá-Una e Xingu) e nos rios Tocantins e Capim. Encontrados também nos rios Amapá, Araguari e Canumã. Em suma, os estados que o pinima é encontrado são: AM, PA, RO, TO, MT e AP. Além desses estados, esses tucunarés foram translocados para algumas represas do Nordeste e no rio Paraguaçu, no Sudeste do Brasil.

Cichla pinima - Arquivo Leonardo Arona Alves

Cichla temensis (tucunaré Açu):

São da bacia dos rios Negro e Orinoco no Brasil, Colômbia e Venezuela. Também é encontrado em rios de águas negras ao longo do rio Solimões-Amazonas, como Tefé, rio Puraquequara, Rio Uatumã e Silves. Além desses rios, foi introduzido na represa de Balbina.


Cichla temensis - Alex Keus com Tucunaré Açu

Cichla thyrorus (tucunaré Porteiro):

Endêmico do Rio Trombetas, à montante da Cachoeira da Porteira, por isso seu nome.


Gustavo Troyac - Cichla thyrorus

Cichla vazzoleri (tucunaré “Vazoléri”): Endêmicos dos rios Uatumã e Trombetas (jusante da Cachoeira da Porteira) e introduzido na represa de Balbina.

Marcel Wener - Cichla vazzoleri

Algumas curiosidades ou peculiaridades de algumas espécies:

- Tucunaré Piníma. Este é o tucunaré nativo mais “espalhado” do Brasil. Ocorrem em seis estados. Com coloração amarelada bem viva, é um tucunaré bem forte e pode crescer bastante (nem tanto quanto o açu).

- Tucunaré Açu. O maior de todos. É o mais procurado por “quebradores de recordes”. A febre dos pescadores em ir atrás dele move a economia de cidades como por exemplo, Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro, ambos municípios do Amazonas. Um peixe estúpido que explode nas iscas de hélice como nenhum outro. Por isso que ele é tão procurado, pelo seu temperamento extremamente agressivo.

- Tucunaré “Vazoléri”. É uma das espécies que crescem bem também. Pode passar dos oito quilos. Originário do rio Trombetas, da parte de baixo da cachoeira da Porteira, ou seja, a jusante da cachoeira. Da cachoeira para baixo, os tucunarés são encontrados mais em lagos e águas paradas. Para captura-los, seguimos a pescaria mais “tradicional” dos tucunarés, pescando nesse tipo de ambiente. Na represa de Balbina, esse tucunaré foi introduzido. A pescaria de lá é feita nos “paliteiros”, grotas, drops (degraus) e árvores afundadas.

- Tucunaré Porteiro. Peixe estúpido e com potencial para crescer. Bem troncudo e musculoso devido ao seu habitat. Eles vivem no Trombetas, à montante da cachoeira, ou seja, para cima. Nesse trecho do rio, as águas são bem mais correntes e com bastante pontos de corredeiras e raseiras. O legal deste peixe, é que muitas vezes precisamos arremessar nas corredeiras para captura-los. Uma pesca bem legal e incomum de fazer.

- Tucunaré do rio Xingu. Tucunaré bem divertido de se pescar. Não crescem tanto. Os “grandes” de hoje em dia, pesa em torno dos cinco quilos. O legal deles, é que é um peixe que gosta de locais com águas mais correntes, como corredeiras e entradas de lagoas nos rios, onde as águas são mais velozes.

- Tucunaré fogo do São Benedito, Azul, Cururu e afluentes. Para mim, o mais bonito de todos. Sua coloração é bem diferente dos outros, com tons verdes, vermelhos vivos e escamas contornadas. Peixe lindo! Não crescem muito. Numa pescaria, os exemplares chegam á uns quatro ou cinco quilos.

- Tucunaré Azul. Esse cara é “embaçado”. Tem uma força descomunal. São os peixes dos campeonatos no Sudeste. Os maiores exemplares são encontrados nas áreas mais fundas, em torno dos sete metros. Iscas “barbeludas” fazem a diferença na pescaria desse tucunaré.

- Amarelo. Muito difundido no Brasil. Juntamente com o Azul (Cichla piquiti), acredido que é o mais pescado. Isso porque é um dos tucunarés mais introduzidos nos estados brasileiros. Nos estados do Sul e Sudeste, não crescem tanto quanto nos estados de origem. Acredito que é por causa da temperatura média anual. Lá no Centro-Oeste e Norte é bem mais quente.

- Amarelo do Norte (Ocellaris). Foi esse que o pessoal levou para os Estados Unidos. É um peixe que no Brasil, só tem em Roraima. Na América do Sul, ele é encontrado na Guiana, Guiana Francesa e no Suriname.

- Popóca. Muito comum nas pescarias dos tucunarés amazônicos. Sempre entram na isca “tirando as chances” do açu atacar. Mas não podemos desdenhar do bichinho. É bem bravo e dispara muito coração de pescador.

- Pitanga. É o tucunaré do Guaporé. Não cresce tanto. Pesquei a maioria deles nos lagos do rio Guaporé. Nos pontos mais rasos usando iscas de superfície e nos mais profundos, iscas vibratórias.

- Borboleta. Para mim, é o segundo tucunaré mais bonito. Amarelão ouro com manchas nos lugares das barras negras. Na pescaria amazônica, se captura bastante deles. É um peixe muito voraz. Ataca bem as iscas grandes, que usamos para os açus.

EXTRAS:

Tucunaré Paca:

Não falei nada sobre os “Tucunarés Pacas”. Simplesmente porque não existe esta espécie.

- Mas é claro que existe tucunaré Paca, diz Joãozinho espantado com a afirmação do autor.

Sim, existe. Eu mesmo já peguei de várias espécies... Vou explicar melhor. Primeiro precisamos entender por que desse nome. Conhecem o animal paca (Cuniculus paca)? Um roedor com coloração marrom avermelhado e pintas brancas. Olhem essa que encontrei “fazendo frete” numa pousada na Amazônia. Dá para ver direitinho a semelhança com a coloração de um tucunaré Paca.


Por essa coloração, é que o tucunaré Paca tem esse nome. Mas este tucunaré, não é uma espécie. É uma fase na vida do peixe, fase de maturidade sexual. Na época de reprodução, as pintas somem, as cores reavivam e o peixe fica o mais majestoso possível para formarem seus pares. Após esta fase, as pintas voltam. Elas ajudam na camuflagem do peixe nos alagados, já que eles vão precisar se alimentar muito, porque na fase de reprodução, eles estavam focados em procriar e deixaram de se alimentar.

Informação MUITO importante:

Sempre que encontrarem os “chuveirinhos”, não arremesse em cima. Essa “formação”, são os alevinos dos tucunarés. Eles ficam agrupados para se protegerem, já que em um cardume bem denso, parecem ser um indivíduo só, e dos grandes. Além disso, eles podem estar ingerindo zooplancton bem na flor d’água. Logo abaixo deles, estão os pais, protegendo sua ninhada e espantando os possíveis predadores. Se os pais saírem de perto dos filhotes, os lambaris (seus maiores predadores) ou outros peixes vão acabar com a molecada. Se você quer preservar, não pesque nos “chuveirinhos”. Se por ventura capturar um tucunaré nesta ocasião, não pegue o segundo peixe (par do casal) e solte o animal capturado o mais rápido possível e bem perto do local onde ocorreu o ataque. Só uma coisa: não adianta nada você brigar com o pessoal que mata tucunaré, se você pesca nos “chuveirinhos”. Sua chacina é maior, acredite!

Confiram!!

Link da IGFA (International Game Fish Association) para conferirem os recordes mundiais das espécies dos tucunarés. Ainda não consta a 16ª espécie, a recém catalogada, Cichla caractae. Mas vale a pena ver, mesmo por curiosidade. A IGFA, é o órgão responsável pelas homologações dos recordes mundiais de todas as espécies de peixes do mundo.

É isso! Acho que ajudei vocês a conhecerem um pouco mais sobre esses peixes incríveis! E quando forem pescar os tucunarés, procurem saber qual é a espécie que você encontrará. Te falo isso, porque vira e mexe, algum doido transloca alguma espécie para outro ponto. E por esse mesmo motivo, é que não podemos afirmar 100% que as localidades em que os tucunarés estão hoje, são precisas. Amanhã podem mudar para mais pontos...

Pra cima deles! E boa pescaria!


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